A escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 foi especialmente comemorada por pesquisadores da Unicamp que acabam de desenvolver um sistema microcontrolado para monitoramento de atividades esportivas. O protótipo é baseado em sensores de aceleração e rotação que permitem obter informações biomecânicas do atleta e monitorá-lo durante o treinamento, sem que ele precise sair do ambiente onde pratica o esporte. Em comparação a outras ferramentas tecnológicas para auxiliar na performance esportiva, este dispositivo ainda tem a vantagem do baixo custo e de não ser invasivo, o que permite sua fixação em qualquer parte do corpo a ser monitorado.
“Comemoramos bastante a vitória do Rio de Janeiro porque em todos os países que sediam a Olimpíada há um grande investimento em tecnologia voltada ao esporte. Um bom exemplo é a Austrália, que criou um instituto dedicado especialmente ao estudo do esporte e, dentro dele, uma área específica de instrumentação eletrônica aplicada às diversas modalidades. Os australianos, que não se destacavam tanto no quadro de medalhas, passaram a figurar como quarta ou quinta potência olímpica a partir de 2000”, recorda o professor Fabiano Fruett, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp.
Fruett coordena o Laboratório de Sensores Microeletrônicos, onde orientou a dissertação de mestrado de Yull Heilordt Henao Roa, defendida no final de setembro. “Trabalhamos basicamente com sensores de aceleração (que mede a aceleração linear) e de rotação (que fornece a velocidade angular). Com isso, podemos mapear a trajetória e o giro de um segmento corporal. As informações dos sensores seguem por radiofrequência para um laptop e são processadas através de um programa de interface intuitivo e de fácil operação”, explica o autor do trabalho.
Segundo Heilordt, esta interface arquiva e apresenta os dados na forma de gráficos e em tempo quase real para o esportista ou treinador. “Isso permite o monitoramento durante a atividade, com alcance de até 70 metros, o que é importante para aperfeiçoar a técnica e o desempenho. De fácil fixação no atleta, o sensor é pequeno e pesa apenas 40 gramas. Posteriormente, os dados armazenados podem ser processados em outras linguagens, auxiliando na pesquisa na área de educação física”.
O autor da pesquisa observa que a estimação e avaliação do desempenho de atletas de alto nível requerem o conhecimento de muitos fatores biomecânicos. “Na maioria dos métodos para estimar esses fatores, o esportista precisa ficar restrito ao laboratório ou fazer uma interrupção periódica da atividade, como por exemplo, para tirar amostras de sangue. Entretanto, a performance de um atleta estudado em condições de laboratório é diferente da obtida durante a prática esportiva”.
Com a FEF
Para o desenvolvimento do sistema, o professor Fabiano Fruett ressalta a colaboração do Laboratório de Instrumentação para Biomecânica (LIB), através dos professores Sérgio Augusto Cunha e Luiz Eduardo Barreto, na Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. A colaboração da FEF se deu nos testes de campo, em que a modalidade escolhida foi o ciclismo, com medições em bicicleta estacionária dentro de laboratório e em performance de pista no velódromo de Americana (SP).
No ciclista, sensores foram posicionados na coxa e também no tornozelo, com o intuito de registrar as características da pedalada baseados na aceleração triaxial e na velocidade angular no ponto de fixação do sistema. Heilordt atenta, porém, que as aplicações são muitas e não se restringem a um só esporte. “No futebol ou no vôlei, por exemplo, podemos verificar quanto o atleta está saltando, o que o vídeo não permite. Recorrendo a um pedômetro, sabemos se a pessoa está parada ou caminhando e o quanto caminhou. Também é possível medir a temperatura corporal e o gasto energético em função da aceleração”.
O autor do estudo explica que a adaptação dos sensores a outros esportes dependerá basicamente de mudanças na programação da interface do computador, mantendo-se o mesmo hardware. “É um protótipo altamente versátil e atualizável, com possibilidade de servir até mesmo para acompanhamento de terapias de reabilitação, mediante o desenvolvimento de uma interface dedicada para esta tarefa”.
De acordo com Fabiano Fruett, o trabalho do seu laboratório está concluído e o sensor foi disponibilizado para a FEF, que se torna assim a sua usuária e se encarregará de avaliar outras aplicações. “Acredito que este sistema de monitoramento não está muito longe do mercado, inclusive porque os dispositivos usados em seu desenvolvimento são todos comerciais. Com o anúncio da Olimpíada no Rio, o Brasil também vai investir maciçamente em tecnologia aplicada ao esporte, ao passo que nosso trabalho terá mais visibilidade”.
Texto: Luiz Sugimoto
Fonte: Jornal da Unicamp |
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