Saúde mental do idoso

 


Wimer Bottura Júnior

 

Nasci em 1948. Tenho 62 anos, planos para o futuro, atividades intensas e interessantes no momento. Olhando para o passado percebo que, quando eu era adolescente, tinha certeza que um homem desta idade seria um velho, um idoso, um ser quase imprestável.
Recordo a música “Mulher de Trinta”, sucesso do fim da década de 1950 ou do início da de 1960. Na época, as mulheres sofriam ao chegar nos “trinta” — imagine então aos quarenta. Recordo-me do constrangimento que foi para minha mãe, antes dos cinquenta anos, descobrir que estava na menopausa, como se ela fosse a única mulher a chegar a este estágio — qual uma doença ou algo passível de vergonha. Quanto sofrimento as pessoas alimentavam em função de coisas tão normais como o simples passar do tempo e o desenvolvimento normal de uma existência.
Conheci apenas um dos meus avós, um senhor já nos seus 77 anos e com graves sintomas de demência. Ele passava horas batendo com um jornal na parede, matando formigas que só ele via. Não tinha noção do valor do dinheiro e mal sabia quem eu era. Perguntava sempre as mesmas coisas. Me diziam que isto era coisa de velho, “que era assim mesmo”... Conheci outras pessoas de idade semelhante a ele, alguns ranzinzas, outros pessimistas ou esquecidos, alguns avarentos, outros irritados ou até inconseqüentes — e ouvia dizer: “coisas da idade”. Passei a acreditar que a velhice era uma coisa ruim e nem percebia que existiam outras pessoas da mesma idade que ele que, no entanto, eram alegres, felizes, ativas e produtivas.
Quando já na faculdade de medicina, aprendi que existe diferença entre senilidade e senescência.
Algumas manifestações de doenças são tão comuns que, aos olhos do observador menos informado, parecem comportamentos absolutamente normais. Entretanto, nem tudo que é comum é normal: durante muito tempo, foi comum mulher morrer em trabalho de parto, mas nunca normal. Violência domestica também era comum, mas nunca foi normal.
É muito comum que a pessoa com mais idade pense que já não tem mais função, que nada mais tem a aprender, que o próximo passo em sua vida é a morte. Comum pode ser, é verdade, mas não é normal. O que parecia velho há quarenta anos, já não é mais. O que parecia acabado, não acabou — foi renovado, obteve novo significado. Assim acontece com as pessoas ao longo da vida.
A ciência, de um modo geral, traz novidades a cada dia. Isso faz com que coisas e fatos considerados normais no passado, porque eram comuns, hoje podem ser vistos como anormais. Esse é o caso da senilidade: o mau humor, a avareza, a irritabilidade, o pessimismo são anormalidades, embora ainda comuns. Na verdade, são conseqüências da depressão, da má-alimentação e de outros problemas de saúde muitas vezes evitáveis. O problema é que a depressão, por exemplo, pode acarretar problemas de coração. Estudos recentes mostram que a depressão aumenta de 1,5 a 2 vezes o rico de doenças coronarianas. Enquanto a depressão afeta de 4% a 7% da população em geral, entre as pessoas com doenças coronarianas a depressão atinge índices de 14% até 47% de incidência. Ou seja, doenças geralmente associadas à senilidade podem ter outras causas, causas essas que dependem mais do tipo de vida que a pessoa leva do que de sua idade. E a depressão, assim como a má-alimentação, pode estar associada a uma visão estereotipada da idade, quando a “velhice” chega antes na cabeça da pessoa que se acha “sem função”, ou acredita que não tem mais nada a aprender, ou quando acha que tem que ainda tem que se encaixar em padrões sociais que privilegiam a juventude. Isso pode ser comum nas mulheres de meia-idade que desenvolvem distúrbios alimentares em meio à esperança de permanecerem adequadas à padrões e ideais de beleza voltados aos jovens.
Quando na infância o indivíduo faz seu plano de vida, seus pais e avós já estão entre os trinta e os sessenta anos. A criança imaginaque será velha quando atingir esta idade. Mas a cada geração, a expectativa de vida aumenta e com ela a longevidade e vitalidade das pessoas. Quando a mocinha fez seus quinze anos, com direito à festa de debutante e tudo que tinha direito, sua avó tinha entre quarenta e cinquenta anos, e a tia solteirona não passava dos vinte e oito. Para ela, no entanto, todas pareciam velhas. Nos planos da menina debutante, aos trinta anos começaria a decadência, após dobrar o “Cabo da Boa Esperança”, e aos quarenta então seria melhor não estar por este mundo, ou então já ter parado de contar aniversários. Assim, pouco a pouco, as pessoas internalizavam o valor da idade. O que estas pessoas não percebiam é que estavam fazendo planos de vida sem levar em conta as mudanças que surgem a cada dia. O ancião de cinquenta anos das gerações passadas não existe mais, mas, na imaginação de uma criança que vê seu espelho envelhecido, o abismo que a separa de seus pais parece bem maior do que realmente é. Mas esse espelho vai aos poucos se desfazendo conforme o tempo passa mais depressa — e ele acelera a cada ano. A vida vai passando e os planos vão mudando. A cosmética, a estética, a ginástica etc. servem de armas que ajudam na batalha sempre ingrata contra uma visão distorcida da natureza e sua evolução inexorável. Há, portanto, que se levar o melhor da palavra “evolução” e orgulhar-se, envaidecer-se desse engrandecimento, da sobrevivência frente às tantas dificuldades vencidas. Sobrevivemos a tantas bactérias, vírus, acidentes, incidentes, conflitos que passaram ao nosso lado e que poderiam ter nos atingido. Muitas vezes nem sequer os percebemos. Sim, somos heróis, sobreviventes, merecemos comemoração e não vergonha!
Somos vencedores de inúmeras batalhas que não levamos em conta. Desde antes de nascermos, a primeira batalha, uma corrida com mais cento e cinquenta milhões de concorrentes, na qual só um chegou. No meu caso, eu; no seu caso, você. Realmente, em alguns casos, dois ou três chegaram ao mesmo tempo, são gêmeos. Depois as desidratações, pneumonias, epidemias; mais tarde o enfarte, o derrame, a embolia. E o atropelamento, o engavetamento, o marido ciumento, não foram evitados? E o alimento, o movimento e o provimento não foram bem feitos?
Ora! Merecemos é comemoração, não vergonha!
De chegarmos aos sessenta, setenta, oitenta, noventa e quem sabe os cem. Hoje, temos a chance de abrir o imaginário das crianças para a possibilidade delas se pensarem aos cem anos e de como elas serão com tal idade. Os idosos de hoje sofrem muitas vezes porque lhes faltam modelos, pois pouco se conhece sobre as pessoas de oitenta, noventa ou cem anos. Na maioria das vezes, pessoas nessa idade são tratadas como exceções, velhinhos bonitinhos tratados como crianças ou inválidos, pois chegaram onde ninguém imaginava que chegariam. E é aí que está o problema: as pessoas ainda pensam ser impossível chegar a tal idade, apesar de ser cada vez mais comum, ou seja, elas ainda pensam com os modelos do passado. 
Os idosos sofrem hoje da mesma forma que as mulheres que chegaram à menopausa na década de cinquenta sofreram porque foram as primeiras. Pouco se sabia sobre isto até então. É o caso também dos primeiros homens a fazerem exame de próstata: passavam por grande constrangimento, tinham vergonha de admitir que foram examinados. Hoje já se faz piada sobre o assunto. Já começa a ser normal o exame, não a doença. O tempo passa e as concepções mudam com ele — devemos aproveitar isso ao invés de ficar dando ouvidos aos ecos de um passado ainda presente. Os exemplos de novas possibilidades são muitos. É só prestarmos atenção.
Tenho ouvido de pessoas que ser avô é melhor que ser pai, então posso imaginar que ser bisavô deve ser melhor ainda: só direitos sem a mínima responsabilidade... Os avós ainda têm alguma responsabilidade.
Há vinte anos, uma cliente minha de cinquenta anos, viúva desde os trinta e cinco, encontrou um possível paquera. Seus dois filhos a impediram de levar adiante o “affair” e ela se calou. Hoje, aos setenta, ela lamenta a oportunidade perdida. Seus filhos também.
Há pouco tempo, uma outra cliente de sessenta e cinco anos, divorciada, reencontrou com um antigo colega de ginásio, uma paixão recolhida desde aquela época. Seu filho foi quem a levou ao encontro dele. Eles estão “ficando” e os filhos de ambos estão felizes da vida, dando o maior apoio. Ela se sente mais jovem hoje que quando tinha trinta anos: naquela época, ela pensava que nada mais teria a aprender. Agora aprende um pouco a cada dia. Inclusive a ter orgasmos, coisa que nunca teve durante o casamento. A mudança é notável. Já sem perigo de engravidar, com o estimulo dos medicamentos modernos para disfunção erétil, não faz mais sentido reprimir a sexualidade. Pode-se dançar, tomar um vinho e transar. Não é preciso mais esconder dos filhos, nem das amigas. Pode-se passar o fim de semana numa pousada com o amigo, com o “ficante”. Estamos potencialmente mais jovens hoje aos cinquenta do que antigamente aos trinta.
A diferença entre o velho e o idoso é que o último ainda tem muito a aprender, enquanto o primeiro, em qualquer idade, acha que já sabe de tudo. O idoso aprende a cada dia — e mais que isto — ensina ao aprender!