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Pais: espelhos para seus filhos

* Capítulo do livro Filhos Saudáveis, de Wimer Bottura, Ed. República Editorial, p. 39

O espelhamento está diretamente ligado ao tipo de relação dos pais com seus filhos, ou seja, às ações, atitudes, comportamentos e conceitos que são transmitidos à criança.

Se os nossos espelhos forem fiéis, mostraram a nossa verdadeira imagem, e assim, teremos uma boa autoimagem.

Se os nossos espelhos forem distorcidos, agressivos, irritados, infelizes, pessimistas, otimistas, sonhadores, alienados, confusos, rígidos ou contemplativos, teremos uma autoimagem ruim. Poderemos até ter admiração por nós mesmos, mas nossa autoimagem será infiel. Infiel porque não retrata o nosso eu verdadeiro. E quando falo de autoimagem, refiro-me também ao nosso conteúdo, ao que vemos dentro de nós.

Assim, por exemplo, um pai acredita que está estimulando seu filho quando se mostra admirado diante de algo banal que a criança realizou. Pode ser que ele tenha, realmente, essa intenção, mas a leitura que o filho fará de sua admiração será bem diferente: “Meu pai ficou surpreso ao me ver fazer o que qualquer outra criança faz, portanto, meu pai acha que sou menos capaz que os outros”. Esse raciocínio pode não ser verdadeiro, mas ficará registrado como tal.

É claro que isso acontece não apenas com um episódio de admiração, mas sempre que se trata de um comportamento repetitivo por parte dos espelhos, no caso, de um comportamento dos pais. Dizemos sempre que a moeda tem dois lados. A relação de seus filhos com seus espelhos também. Um pai pode falar “coroa” e a criança entender “cara’. Um pai pode dizer: “Nossa, meu filho, você conseguiu?” e o filho entender “Acho que ele não acredita em mim”.

Todos fomos educados com muitas expectativas e educamos nossos filhos dessa maneira. Grande parte das crianças de dois anos, por exemplo, usa roupas tamanho quatro, como se a precocidade fosse um sinal de êxito dos pais e da educação. Na verdade, esse fato se deve a uma jogada de marketing de um profissional bem atento: percebeu que os pais gostam de mostrar precocidade dos filhos e, para isso, compram mais roupas.

Este é um fato que ocorre em quase todo o mundo e comprova que os pais esperam dos filhos maior maturidade do que eles realmente têm. Evidentemente, ficam decepcionados quando os filhos não correspondem às suas expectativas. Assim sendo, a criança, percebendo a decepção que causou, pode internalizar: “Sou um fraco”, “Não sou bastante capaz”, “Farei qualquer coisa para não decepcionar meus pais”. Caso essas interpretações ocorram, essa criança passará a viver a vida dos pais e não a si mesma. Pior, ocorrerá o risco de se sentir infeliz e fracassada por não fazer aquilo que tem vontade ou por não conseguir realizar os sonhos dos pais.

 Nesse caso, o problema não está na criança, em ser como ela é, mas está na diferença entre o referencial oferecido pelos espelhos e a resposta da criança. Os espelhos erram ao oferecer um referencial alto em expectativas. Da mesma forma, seria problemático se os espelhos não oferecessem qualquer informação.

Mais uma vez, percebemos que as boas intenções não trazem, obrigatoriamente, resoluções positivas para a criança.

PRÓXIMO CAPÍTULO: ” A criança e os estágios de apreensão da realidade”.

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