Artigo O Amor Não é Obrigatório
Vou tocar aqui numa questão um tanto complexa: a do ciúme, da liberdade e do outro. Existem situações bastante concretas e visíveis que traduzem exatamente este tipo de questão. E uma delas é a gravidez de uma mulher. Muitas mulheres sentem-se presas desde o primeiro momento em que engravidam, seja em função da própria gestação, das alterações do corpo, das dificuldades de se movimentar ou dos riscos que possam surgir. Com uma série de limitações que ela mesma se impõe ou são impostas por terceiros, acaba tendo ciúme da liberdade do marido. Da liberdade de movimentos, do próprio corpo, das atividades que ele continua exercendo. Quando o bebê nasce, a mulher se coloca dentro de restrições: sente-se a única responsável pela criança, restringe passeios, afazeres e trabalho em função disso. Como o homem continua a fazer o que quer e na hora que quer, o filho acaba se transformando - na cabeça da mãe - no objeto de limitação amarga de sua vida. Vivendo esse processo, é esperado que uma esposa tenha ciúme do marido e inveja de sua liberdade. Várias pesquisas revelam que é enorme o número de mulheres que gostariam de ser homens, não por questões sexuais, mas pelo tipo de comportamento masculino. Teoricamente o homem é mais livre, não menstrua nem engravida. A mulher sente uma certa inveja do homem em determinadas circunstâncias, como da aparente liberdade, das chances profissionais, da possibilidade de poder, etc. De alguma maneira, este ciúme e inveja vai acabar criando uma relação complicada também com os filhos. A mulher, tão desprezada e diminuída, terá necessidade de controlar as crianças para assegurar a sua própria sobrevivência. Para que ela continue a ter importância na família e não perca seu homem, vai precisar se mostrar sempre necessária nos cuidados com a criança e, para isso, terá que controlar todos os seus passos. Por outro lado, a prole foi exatamente a responsável pela prisão desta mãe. E aí vem a mistura de raiva, inveja e ciúme, da mãe para com os filhos e da esposa para com o marido. Enfim, uma situação complicadíssima. Ficará difícil aceitar todos esses sentimentos, porque, em nossa sociedade, o amor pelos filhos e pelo marido é obrigatório. Outro aspecto importante, nesta questão da liberdade, é o fato de a mulher achar que se torna desinteressante durante a gestação. Algumas pensam que a transformação de seus corpos, a fase da amamentação, o cansaço natural que surge devido aos primeiros cuidados com o bebê, são fatores determinantes para que o amor do marido por elas desapareça. Muitas acreditam até que seriam mais felizes se não tivessem filhos. Outras ainda, por causa disso, vêm os filhos como um estorvo. Na nossa sociedade, a obrigação da mulher de ter filhos ainda é um grande mito. Ela não só é obrigada a tê-los, como mantê-los vivos para não perder a proteção do homem. Assim, fica difícil para uma mulher que sofre estas pressões falar em amor. Simplesmente porque amor não pode ser um sentimento obrigatório. |