Fechar |
|
ENTREVISTA A Música Como Intervenção de Enfermagem no Controle da Dor 1. Como se deu seu interesse pela utilização da música como forma de intervenção no controle da dor? Há mais de 10 anos venho trabalhando e desenvolvendo pesquisas junto a pacientes com dores crônicas. Trabalhar com dor crônica é difícil e muitas vezes frustrante, pois existem dores refratárias à terapêutica disponível, mesmo quando trabalha-se com o que há de ponta para o tratamento anti-álgico. Frente a esses casos surgia sempre a inquietação para encontrar alternativas que possibilitassem minimizar o sofrimento dos pacientes. A literatura internacional em enfermagem sempre apontava uma série de terapias complementares para o tratamento da dor, medidas não famacológicas a serem exploradas, dentre elas, a música. Amo a pesquisa e sempre amei também a música, desde a barriga da minha mãe ou até antes disso, não sei. A possibilidade de transformá-la em objeto de estudo para conhecer e criar experiência sobre a sua influência na saúde humana foi a escolha mais acertada quando ingressei no mestrado na USP. 2. Há quanto tempo você realiza esse trabalho? Fale um pouco a respeito do desenvolvimento desse processo. Desde 1996. O trabalho com música tem sido desenvolvido de formas diferentes , de acordo com a minha trajetória pessoal e profissional. Comecei estudando. Ao defender o mestrado em 1998, fui convidada por alguns médicos para participar de um Programa Educativo em Dor crônica que era realizado no Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, mais conhecidos como Escolas: Escola de Fibromialgia, Escola de coluna e Escola de lesões por esforços repititivos e doenças osteoarticulares relacionadas ao trabalho (LER/DORT). Esses programas tinham uma abordagem cognitivo comportamental para auxiliar os pacientes no manejo e controle da dor, objetivando também melhor qualidade de vida. No início temi não saber ao certo como conduzir o trabalho. O que eu tinha em mãos era o resultado da minha pesquisa, que corroborava outros autores no sentido do emprego da música para o alívio da dor. Saí de uma situação controlada, de pesquisa, para um trabalho vivencial. Denominei o projeto de “Que tal uma música na sua vida“. Realizava às quintas-feiras sessões musicais com grupos de 12 a 15 pacientes e o trabalho se constituia de cinco fases: uma breve contextualização teórica sobre música e saúde, a sensibilização (exercícios elementares de percepção sonora), uma fase integrativa das fases anteriores por meio da audição de uma obra de Wagner e a última, a avaliação, na qual os pacientes avaliavam a experiência como um todo e a repercussão sobre seu quadro doloroso. Foi um período de aprendizado muito grande e os pacientes traziam fitas cassete para serem gravadas e as utilizava em casa depois, demonstrando o quanto a intervenção lhes era benéfica.Esse trabalho prosseguiu até quase o final de 2001, quando tive uma mudança de emprego que não me possibilitou sua continuidade. Segui atendendo somente os pacientes individualmente, que participavam da do desenvolvimento da tese. 3. Você cita em seu livro a quase ausência de critérios para escolha de um repertório musical específico com finalidade terapêutica. Como suprir essa lacuna e chegar a uma escolha satisfatória? Essa é uma pergunta difícil de responder. Cada paciente é único, cada música é única e cada experiência também. Talvez por isso, a preferência musical seja a tônica em muitos trabalhos musicoterápicos. Para o desenvolvimento de um trabalho, dentro de um setting psicoterápico desenvolvido por musicoterapeutas é totalmente plausível, mas não é aplicável por outros profissionais da saúde, na maioria, que a utilizam em uma abordagem complementar a outras intervenções específicas. Sou adepta da visão expressionista, de que a música tem valor e significados intrínsecos e que suas características estruturais provocam sentimentos e emoções nos ouvintes. Só quando tivermos pesquisas demonstrando como as músicas produzem um efeito semelhante num grande número de pessoas é que poderemos nos sentir mais tranquilos na escolha do que oferecemos aos nossos pacientes. Até lá, muito há por ser construído por muitos. 4. Quais as diferenças entre uma vivência musical com e sem imagens induzidas pelo terapêuta? Existem métodos que utilizam a música em um segundo plano e o terapeuta vai narrando uma cena que convida o paciente a imaginar, ou seja, as imagens vão sendo induzidas pelo terapeuta. É bastante comum em técnicas de relaxamento, nas quais o terapeuta fala em voz calma para que o paciente se veja num campo entre flores, ou na praia, que ele sinta o calor do sol e coisas assim. As imagens tendem a ficar ligadas ao que o terapeuta diz e não ao que a música poderia despertar por si mesma. Nesse caso, o paciente ouve a música, sem sugestões e ela evoca as imagens. Ambas têm o seu valor, dependendo apenas da situação e da intenção terapêutica, ou até mesmo daquilo que se quer investigar. 5. Como o aparecimento de imagens arquétipicas para um paciente durante uma sessão musical terapêutica, pode relacionar-se com a melhora de quadros de dor. Corpo e mente são indissociáveis . O que ocorre no nosso corpo físico interfere nas nossas emoções e vice-versa. Somos emocionalmente suceptíveis a tudo que experimentamos, vemos e ouvimos. O ser humano é assim. Podemos racionalizar mais ou menos o que vivenciamos e podemos ter mais ou menos consciência disso. Nossas experiências podem ser factuais, imaginadas ou simbólicas e todas elas são reais, no que concerne a produção de uma reação do indivíduo. Por exemplo, você está no trânsito, de repente, surge um carro na sua frente que te obriga a freiar bruscamente, produzindo o som dos pneus no asfalto e você colide com o outro carro, produzindo o som das latarias se chocando. é um susto e tanto. Todas as reações fisiológicas de estresse são desencadeadas. Passado um tempo, você está calmamente sentado na varanda do seu apartamento. Lá embaixo na rua, dois carros se envolvem em um acidente, produzindo os mesmos sons característicos, vivenciados na experiência anterior. Você, lá em cima, pode apresentar novamente o mesmo desconforto, pois até racionalizarmos o nosso cérebro não diferencia uma situação real de uma situação imaginária, podendo produzir inclusive, as mesmas repercussões físicas. é possível fazer essa transposição para o nível simbólico. Os arquétipos são valores universais e coletivos contidos no inconsciente que podem ser acessados através da música e que são reativados pela situação presente daqueles que a visualiza. Então, outro exemplo, nossas primeiras experiências dolorosas ocorrem normalmente na infância. Sentimos dor e alguém cuidou para que ela melhorasse e ela melhorou. Há uma função maternal nisso que permanecerá armazenada durante a nossa existência. Algumas músicas despertam imagens, que evocam o arquétipo materno, produzindo no indivíduo uma experiência simbólica que tem o potencial de produzir a mesma reação experienciada na infância e que aliviou a dor, mesmo que nesse momento ele se encontre sozinho. Ou melhor, ele e a música. E as imagens. E a experiência simbólica (nossa ele já nem está mais tão sozinho em sua dor!). Sentir dor já é ruim, sozinho então, parece pior ainda, segundo o que os pacientes relatam. 6. A utilização de músicas solicitadas pelo pacientes pode influir positivamente em seu processo de cura?Neste caso, o contato com aspectos psicológicos e emocionais do paciente podem ser levados em consideração na eficácia do alívio da dor, mesmo que momentaneamente? Sim, sem dúvidas, pois já existe uma relação estética envolvida, mas ainda assim, depende do material sonoro solicitado. Nem tudo aquilo que nos proporciona a sensação de prazer pode ser de fato, saudável. As pessoas sentem prazer em fumar, mesmo que isso as conduza a problemas respiratórios. Pacientes diabéticos sentem prazer em comer doces e chocolates escondido, que os conduz, muitas vezes, a situações de emergência. Em nome do prazer, adolescentes ouvem heavy-metal em shows de rock, próximos aos equipamentos de som que produzem decibéis muito além do limite que provocam lesões auditivas. A relação direta entre prazer e saúde pode existir ou não. O prazer decorrente de uma emoção evocada, de uma recordação feliz, isso sim, pode te abrigar mesmo que momentaneamente da dor, se a música solicitada tem “história“, mas isso já transcende a preferência por um estilo musical, por exemplo. 7. Existe algum resultado qualitativo de avaliação de pacientes que participaram de experiências dessa natureza? Sim, alguns desses dados estão publicados nos Anais do Congresso Brasileiro de Cancerologia, realizado em novembro/2003. Os relatos dos pacientes vêm recheados de memórias afetivas felizes. Por alguns momentos, esquecem-se da dor, do sofrimento e das doenças. Há um resgate do saudável existente, pois o indivíduo não é doente, parte dele é que se encontra doente. 8. Como você avalia o uso de terapias musicais para outras finalidades que não sejam específicamente para o controle da dor, como por exemplo a melhora da auto-estima, aumento da concentração e melhor desempenho em atividades físicas e intelectuais? Existem estudos específicos que abordam esses temas. Vão desde “as vacas ouvirem música para aumentarem a produção de leite“ ao “desenvolvimento do raciocínio matemático das crianças“. Não no âmbito da pesquisa, é muito comum obsevarmos experiências em outros segmentos que utilizam a música para alguma “função“: campanhas políticas (você não esquecerá jamais o candidato, mesmo que não vá votar nele), música para aumentar o consumo em supermercados, a produção em linhas de montagem, etc... 9. Com surgiu o projeto “Uma Canção no Cuidar“, realizado no Hospital Samaritano? Surgiu em 2003, pois havia terminado o doutorado e queria prosseguir nas investigações. O nome surgiu em virtude da essência da minha profissão que é o cuidar. E como esse é praticamente o único vínculo assistencial que tenho atualmente, já que minhas atividades profissionais se concentram na área de assessoria de pesquisa científica, julguei a denominação apropriada. 10. A proposta desse projeto se diferencia dos objetivos do trabalho de pesquisa da utilização da música em patologias específicas? Penso que não. Hoje tenho uma visão mais global das possibilidades terapêuticas da música. Não acredito que ela trabalhe com a doença, mas sim com saúde. Temos trabalhado o mesmo repertório em clínicas diversas, com pacientes adultos e as respostas têm sido semelhantes. Talvez também porque trabalhamos no momento com um repertório específico, cuidadosamente selecionado para isso. Produzir estados de ânimos considerados como positivos diz respeito a todo mundo, não só aos pacientes. É diferente, por exemplo, da época em que trabalhava com Wagner, que exigia outras abordagens após a utilização da música, uma vez que o processo era mais catártico. 11. Existiu algum critério científico na seleção do repertório escolhido pelo grupo? Sim. Adotamos a Roda de Humores de Hevner e outros princípios adotados em psiquiatria para análise e seleção do repertório, além de uma análise musical e de referencial teórico musicoterápico, como por exemplo, o princípio de Iso de Roland Benenzon. 12. Quais as diferenças observadas no comportamento dos pacientes em relação a audição com música mecânica e música ao vivo? A diferença está na relação interpessoal. Quando eles ouvem o CD, a viagem é mais solitária. A figura do terapêuta, em presença silenciosa, tem atuação mais direta somente ao término da audição. Já na música ao vivo a relação é o tempo todo. Há a troca de olhares, sorrisos. Para além da música, tem toda uma comunicação não verbal envolvida e que também é terapêutica. Além de cantarmos, como somos enfermeiras, há algo em nosso olhar que diz, intencionalmente, “estamos aqui para cuidar de você, nos importamos com você e queremos que você melhore“. O amor, que é a grande energia de cura, tem expressão mais livre. Os pacientes também cantam mais espontaneamente, têm uma participação mais observável durante a execução musical, do que na outra situação. De novo, ambas abordagens têm seu valor. Dependem da proposta de trabalho e do atendimento das condições que cada uma requer. 13. Quais são seus projetos para o futuro. Você pretender continuar o trabalho de pesquisa científica em grupos específicos? Para variar, sempre são muitos, mas que guardam profunda relação entre si. Está quase chegando a hora de escrever um livro sobre este tema, pois venho sendo bastante cobrada quanto a isso. De tanto os pacientes solicitarem, vamos gravar um CD, para distribuição gratuíta para eles. Estamos buscando parceiros para a realização desse projeto. Isso pode contribuir para outras iniciativas em outras instituições tendo como base a nossa experiência. Precisamos avançar no conhecimento científico e por isso as pesquisas continuam. Vou participar de um projeto de pesquisa da UNIFESP voltado para a música em Unidade neonatal. Faço parte também de um grupo de pesquisa do CNPq, vinculado à EEUSP, sobre terapias complementares. Assim quem sabe, quando eu estiver velhinha, talvez já exista uma Associação Brasileira para Música nos Hospitais. Não seria ótimo? |
|
![]() |
|
OS MENESTRÉIS DA TARDE |
|