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EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

 

O desenvolvimento de um povo exige a presença de alguns pré-requisitos básicos, como por exemplo: território e população compatíveis, fatores climáticos aceitáveis, recursos naturais variados e abundantes, governos competentes, organização política e social satisfatória, leis justas e respeitadas, economia viável, e a que é, talvez, a mais importante das variáveis, uma educação de qualidade, que propicie a toda a população intensa e permanente participação nos processos socioeconômicos e políticos do país.

Nas sociedades modernas, a intensidade, a velocidade e a sustentabilidade de qualquer es­forço desenvolvimentista depende da feliz conjugação desses fatores e outros mais, para que haja a transição da pobreza para a prosperidade.

É ver o que ocorre nos países emergentes, entre os quais o Brasil se alinha ao lado da China, dos Tigres Asiáticos, da Índia, do México, da África do Sul e de outros de menor expressão, mas, nem por isso, fora de competição. To­dos apresentaram, meio século atrás, índices de desenvolvimento piores que os do Brasil e hoje estão a ultrapassar rapidamente o nosso desempenho, com base principalmente nos acertos de seus sistemas educacionais: erradicação do analfabetismo e qualidade em todos os graus de ensino formal, da pré-escola à pós-graduação.

Revolução competente. O maior exemplo é a Coréia do Sul que, na segunda metade do século 20, mobilizou forças e recursos para fazer reformas em profundidade na educação e preparar-se para enfrentar os desafios do século 21. Tem feito, cem anos depois, o que fez o Japão no século 19, com a histórica Revolução Meiji, ao colocar a educação do povo como a prioridade um da ação governamental. Como conseqüência, a Coréia do Sul, que por muitos anos fora escravizada pelo Império do Sol Nascente, protagonizou a mais rápida e bem sucedida transformação econômica da modernidade, apoiada numa competente revolução industrial, voltada principalmente para a competividade.

Hoje, o número de alunos coreanos nos mais diversos cursos de engenharia supera, como conta Paul Kenedy em Preparando para o século XXI, o número de engenheiros formados da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados Unidos, juntos. E sem que haja desemprego, dada a pujança que preside a expansão da sua indústria de base.

O Brasil está perdendo a corrida para a Coréia do Sul – como também para a China, a Índia e o México – e uma das explicações é a pouca eficácia do nosso sistema educacional. País elitista no que diz respeito aos processos civilizatórios e retardatário no que concerne às transformações que ocorrem no mundo, o Brasil persiste na prática de uma educação quantitativamente insuficiente e qualitativamente imprópria para uma verdadeira transformação sócio­econômica e cultural. No quantitativo tem havido avanços, mas a qualidade deixa a desejar.

Lei dos comboios

O aproveitamento escolar, da educação básica à universitária, tem se mostrado extremamente precário. As avaliações internas e externas revelam taxas baixíssimas de desempenho, eis que mais de 50% dos alunos nos graus fundamental e médio saem da escola sem saber ler e escrever com correção e clareza, e com incapacidade total para as operações aritméticas mais complexas, que envolvam o uso de números com­postos de três ou mais algarismos. No ensino superior, a situação não é me­nos grave, pois, sendo a herdeira das insuficiências e distorções do ensino ­­básico, a universidade tem que rebaixar seus padrões acadêmicos e trocar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação pela lei dos comboios, segundo a qual a unidade mais lenta regula a velocidade do conjunto.

O exemplo maior da incompetência crescente dos cursos superiores está na aprovação apenas de 7 a 10% dos inscritos nos recentes exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Como conseqüência da deficiência educacional das novas gerações, assiste-se ao preocupante espetáculo do rebaixamento da eficiência geral dos serviços, especialmente os públicos, bem como à crise da ética no convívio social e nos procedimentos políticos, e ao desânimo geral que parece se ter abatido sobre o povo, como se nada mais valesse a pena, já que a alma nacional ficou pequena.

Moeda do poder

À vista disso tudo, eleva-se, pouco a pouco, um clamor ainda tímido, mas que ensaia crescer, em favor da mudança profunda e urgente na educação, com vistas à recuperação de sua qualidade. Na era do conhecimento, na qual o saber é a moeda do poder, não há mais como conviver com milhões de diplomados que nada sabem e que pouco podem contribuir para o esforço nacional de desenvolvimento. Há que qualificar o processo ensino-aprendizagem em todos os graus de escolaridade e essa qualidade deve traduzir-se numa educação que efetivamente prepare as jovens gerações para a participação na luta pelo sucesso pessoal e pelo desenvolvimento social.

Caso contrário, o Brasil poderá perder mais uma grande oportunidade histórica de vir a integrar, no médio prazo, o fechado clube dos países do primeiro mundo, e sua educação correrá o risco de viver o melancólico desempenho que transforma analfabetos puros em funcionais, até mesmo aqueles que logra­ram obter seus diplomas universitários...

Fonte: www.brasilmedicina.com.br


Paulo Nathanael Pereira de Souza