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Dia dos Pais
 

Olá,

Hoje vou falar um pouco sobre a paternidade, afinal domingo é dia dos pais e mais que comprarmos gravatas e meias, podemos pensar um pouco sobre o que significa ser pai e como conseqüência, o que significa ser filho.

Já foi provada, cientificamente, a importância dos primeiros anos de vida do homem no desenvolvimento de sua personalidade. Hoje sabemos que um indivíduo terá uma vida madura mais saudável se sua infância tiver sido agradável. As dores, angústias ou prazeres que experimentamos quando adultos têm suas bases na criança que fomos.

Embora esta idéia seja suficientemente divulgada, a maioria das pessoas ainda não a leva a sério. De maneira geral, pensamos que os problemas acontecem ao acaso, por uma imposição do destino.

Ora, nada acontece por acaso, nem as doenças. Os distúrbios de comportamento, o uso de drogas e as angústias, também não. Todos os fatos, tudo o que nos acontece é conseqüência de uma história anterior, bem ou mal resolvida.

Nos tempos primitivos, a mulher era considerada a única responsável pela procriação e a descoberta da participação masculina neste acontecimento resultou na constituição da família. Com o passar do tempo, a relação sexual adquiriu o caráter de exclusividade e afeto, e o homem passou a dar mais importância aos filhos pela própria noção de preservação da espécie. A monogamia surgiu como conseqüência desse processo, ou seja, como um meio de se dominar a paternidade. Afinal, poderia nascer uma criança com traços totalmente diferentes dos esperados pelos pais. Visando eliminar a possibilidade de um outro homem assumir a paternidade, a virgindade começou a ser exigida. Ao mesmo tempo, o homem precisou relacionar-se com a mulher mais precocemente, forçando-a inclusive a ter filhos, independentemente da vontade dela. Se por um lado essas atitudes fortaleciam a virgindade da mulher, pelo homem, por outro lado, não bastavam para garantir a paternidade: era necessário controlar todos os machos disponíveis ao seu redor. Por isso, o conceito de família precisou ser ampliado e acrescido de parentes. Surgiram os avós, tios, primos e junto o incesto, com sua devida proibição.

Seguindo este raciocínio, podemos deduzir que o abrigo e a casa foram uma conquista natural e necessária à idéia de proteção da mulher e dos filhos. O homem começou a se preocupar em fixar-se para estar mais perto da família e, ao mesmo tempo, controlar melhor sua paternidade.

A dominação do homem não foi inicialmente uma idéia maldosa. O peso da dominação do homem sobre a mulher, que carregamos até hoje, provém de desvios da história da nossa sociedade. É evidente que, em seus primórdios, existiu uma idéia afetiva que a impulsionou. Surgiram o afeto e o amor na relação primária entre homem e mulher. Do contrário, dificilmente seria possível ao macho dominar a fêmea. Mesmo na maneira de se educar os filhos, para que eles servissem ao pai, havia a visão de que a eles. Não existia maldade nem má intenção por trás desses comportamentos. A lógica era primária, de causa e efeito. O mesmo acontece ainda hoje. Os pais continuam querendo o bem de seus filhos. Casar e ter filhos, então, passou a ser sinônimo de sucesso. A sociedade supervalorizou o demonstrativo e esqueceu a essência.

Até hoje vivemos as conseqüências da evolução do conceito de paternidade e, se analisarmos a história dos nossos antepassados, veremos que nós, ditos homens modernos, agimos como primitivos sem, no entanto, ter consciência disso.

O antagonismo da relação homem-mulher interfere diretamente na educação e na vida dos filhos e, em conseqüência, na sociedade. Esse antagonismo fez, por exemplo, com que a mulher se impusesse à maternidade. O amor materno passou a ser um mito à medida que a mulher foi obrigada a amar o filho que gerou com aquele homem, o pai. O amor deixou de ser instinto e emoção. O amor materno, em dado momento, cruzou a fronteira e percorreu outro caminho: o amor artificial. É difícil para uma mãe pensar e perceber esta questão, mas devemos observar que este desvio não é culpa da mulher nem de ninguém e sim, do próprio processo histórico.

Toda relação que se criou pelo conceito de paternidade repercute diretamente na educação dos filhos, ou seja, os modelos de pai e mãe, que os filhos serão no futuro, ou no futuro de nós mesmos, vão sendo passados de geração a geração, todos os dias, sem pestanejar. A mulher, por exemplo, tem a obrigação de gerar, determinar o sexo e educar as crianças. Existe hoje tarefa mais difícil que educar um filho? Com certeza não. Já ao homem, cabe a cômoda posição do tenente que cobra do sargento (mãe) o resultado. E o sargento, é pressionado pelo soldado raso (filho), que reivindica, barganha e quer sua liberdade. Além do tenente e do soldado, há o resto do batalhão (família) e outros complicadores.

Estamos muito preocupados em conceituar o, seja entre homem e mulher, seja entre pais e filhos, esquecendo que ele é simplesmente o que se sente de dentro para fora. Não há regras, muito menos emoção certa ou errada. Emoção é a sensação que preserva a vida e tem de ser recuperada no nosso caminho diário.

Temos o costume de sempre esperarmos muito de nossos pais, geralmente muito mais do que eles dar, pois, afinal, esquecemos o fato de que eles também são filhos.

5/8/2003