Recentemente, a autora de novelas Glória Peres, em Caminho das Índias, nos convidou a refletir sobre um comportamento típico, muito apresentado nas escolas e que vem despertando a atenção de profissionais da saúde e educação, bem intencionados, em compreendê-lo e ,se possível, exterminá-lo. Estou falando do BULLYING: termo em inglês que se refere à atitude de um bully (valentão); termo este utilizado para designar a prática de atos agressivos entre estudantes. Este tipo de comportamento é caracterizado por “brincadeirinhas” de muito mau gosto como: gozações, risadinhas, empurrões, fofocas, apelidos como “patinho feio”, “bola”, “pau-de-vira-tripa”, “quatro-olhos”, “ João Grandão” e outros. Comportamento este, considerado normal por muitos pais, alunos e até professores, mas que está longe demais em ser normal ou inocente. Ele é muito comum entre crianças e adolescentes, mas já está sendo praticado na Internet e nas empresas.
Estudiosa e observadora das primeiras relações entre pais e filhos, acredito que este comportamento começa bem antes, quando determinados tipos de pais, que ainda não amadureceram psicologicamente, são eles mesmos que praticam este ato, por não saberem lidar com a frustração, ao perceberem no nascimento dos filhos, que estes não correspondem às expectativas criadas por eles, começam a colocar apelidos e desqualificar seus próprios filhos, ou quando, para não terem trabalho na educação dos filhos, preocupados com suas próprias vidas, deixam de colocar limites ou acham engraçados e até valorizam os comportamentos bizarros dos mesmos, dizendo serem de personalidade forte e instigando que sejam assim mesmo, desculpando-os e arrumando uma maneira de minimizar estes comportamentos. As primeiras crianças serão presas fáceis dos “colegas”,“ professores”,”coordenadores” nas escolas e no trabalho; coloco entre aspas, pois se fossem mesmo a representação fiel do que os substantivos representam,não teriam este tipo de atitude!! E as outras serão os agressores, influenciados pelos comportamentos de reforço dos próprios pais.
O bullying começou a ser pesquisado cerca de dez anos na Europa, quando se descobriu o que estava por trás de muitas tentativas de suicídio entre adolescentes. Sem receber a atenção da escola ou dos pais, que geralmente achavam as ofensas bobas demais para terem maiores conseqüências, o jovem recorria a uma medida desesperada.
Quem sofre com o bullying é aquela pessoa que é perseguida, humilhada, intimidada. Vale ressaltar que estudos recentes revelam que este tipo de prática está atingindo faixas etárias cada vez mais baixas, podendo ocorrer a partir dos 3 anos de idade, quando a intencionalidade desses atos já pode ser observada.
Dr.Aramis Lopes Neto, coordenador do primeiro estudo feito no Brasil a respeito desse assunto — “Diga não ao bullying: Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes”, realizado pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia) relata que os estudantes que são alvos de bullying sofrem esse tipo de agressão sistematicamente e segundo ele, as conseqüências podem ser depressão, angústia, baixa auto-estima, estresse, absentismo ou evasão escolar, atitudes de autoflagelação e suicídio. Enquanto, os autores dessa prática podem adotar comportamentos de risco, atitudes delinqüentes ou criminosas e acabar se tornando adultos violentos”. Segundo Aramis, os motivos que levam a esse tipo de violência são extremamente variados e estão relacionados com as experiências que cada aluno tem em sua família ou comunidade: “Famílias desestruturadas, com relações afetivas de baixa qualidade, em que a violência doméstica é real ou em que a criança representa o papel de bode expiatório para todas as dificuldades e mazelas são as fontes mais comuns de autores ou alvos de bullying”.
José Augusto Pedra -Presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar, nos diz que o fenômeno é uma epidemia psico-social e pode ter conseqüências graves. O que, à primeira vista, pode parecer um simples apelido inofensivo pode afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa. Crianças e adolescentes que sofrem humilhações racistas, difamatórias ou separatistas podem ter queda do rendimento escolar, somatizar o sofrimento em doenças psicossomáticas e sofrer de algum tipo de trauma que influencie traços da personalidade. Observa-se também uma mudança de comportamento: As vítimas ficam isoladas, tornam-se agressivas e reclamam de alguma dor física justamente na hora de ir para escola.
Entre alguns exemplos destas práticas encontra-se o caso de um jovem de 18 anos que em janeiro de 2003 invadiu a escola onde havia estudado, no município de Taiúva, em São Paulo, com um revólver na mão e feriu gravemente cinco alunos e, em seguida, matou-se. Obeso na infância e adolescência, ele era motivo de piada entre os colegas.
Em meu consultório entre os relatos que ouvi, destaco de uma senhora com 50 anos, que, na época da infância, com sete anos, por ser loira, de tipo diferente das colegas da escola, sofreu ataques tanto físicos( as meninas esperavam por ela no caminho da escola, formavam um círculo ao seu redor e chegavam a bater nela), como psicológicos, fazendo ameaças, o que influenciou de maneira negativa em sua vida, levando a desenvolver, timidez, insegurança e a desenvolver doenças tidas como psicossomáticas, como por exemplo , gastrite entre outras.
Faço um alerta!!!! Pais, educadores, coordenadores de escolas, coordenadores no trabalho, agredidos e agressores, enfim, todos que de certa forma estejam implicados com o outro, fiquem atentos, procurem dar mais atenção às queixas e procurem difundir que a melhor maneira de melhorar as condições de se viver bem em comunidade é se colocando numa atitude empática- ”empatia- tem a sua origem na linguagem grega – empatheia, que significa tendência para sentir o que se sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas, vivenciadas por outra pessoa“.
Faz-se importante destacar aqui que o papel mais importante é dos pais que , desde o início de nossas vidas são aqueles que imitamos e de quem esperamos atitude de empatia, segurança, confiabilidade; de quem esperamos limites para podermos viver em sociedade. Eu disse limites, mas como sinal de amor; com paciência e perseverança! Dá trabalho, mas é essencial para a vida, pois, como nos diz D. W. Winnicott, o limite dá a certeza de que se tem alguém preocupado conosco, que está nos olhando e nos dando a possibilidade de “sermos” no mundo!
SÔNIA MARIA ESTÁCIO FERREIRA |