As consequências dos distúrbios de comunicação
* Capítulo do livro Filhos Saudáveis, de Wimer Bottura, Ed. República Editorial, p. 33
A comunicação não é perfeita, sofre inúmeras influências, principalmente em função da diferença nas histórias de vida de cada indivíduo.
Quando nascemos, somos um pequeno animal com características inatas, potencialidades e necessidades particulares. Desconhecemos o mundo, o outro e até nos mesmos, precisamos da relação com nossos pais.
Nós não podemos passar toda a vida experimentando, investigando, conhecendo as pessoas, para, depois, criarmos nossos próprios conceitos. São as experiências tidas nos primeiros meses de vida que irão formar o mapa do universo de um indivíduo.
O mundo do adulto é a projeção do mundo da infância. Quando dizemos “todo mundo vai me reprovar por eu ter cometido esse erro”, estamos nos referindo ao mundo do nosso universo da infância. Se dizemos “todos são maus” ou “todos são bons’, nos referimos ao universo da nossa infância projetada para o presente. Se afirmamos “a vida é uma droga”, também estamos nos referindo somente àquele pedaço do universo em que vivemos e conhecemos.
Indivíduos que nascem e vivem nas mesmas famílias podem se posicionar de forma até mesmo diante do mesmo fato. Enquanto um diz “a vida é uma droga” o outro pode dizer “a vida é ótima”. Ou seja, a verdade é que a vida não é sempre ótima ou ruim: nós projetamos a nossa realidade interna na externa. É como se não vivêssemos no mundo real, mas na representação que temos dele.
Existem alguns mecanismos de apreensão da realidade que podem modificar, e muito, a vida de uma pessoa. Vamos falar sobre três deles: a distorção, a generalização e a eliminação.
A distorção ocorre quando alteramos uma percepção para que, por semelhança a uma outra anterior, possa ser arquivada em nosso cérebro. Se uma informação não encontrar semelhança em nosso arquivo, ela gerará angústia. No recém-nascido, esse mecanismo é mais complicado, pois o número de informações anteriores para serem associadas é muito baixo, portanto as distorções são maiores. Na medida em que associamos uma informação nova a uma anterior, cessa a angústia. Dependendo da quantidade e da qualidade de informações, nós criamos um universo interior mais ou menos próximo da realidade exterior.
Antigamente, por exemplo, ocorria uma distorção quando se atribuía uma série de fatos inexplicáveis a Deus ou ao Diabo. Hoje, existem informações mais reais para a compreensão de muitos fenômenos, como é o caso da crise convulsiva, por séculos atribuída à maldição.
Existem também fatores que levam a um maior grau de distorção. O preconceito é um deles, já que levam as pessoas a bloquearem o processo de compreensão para um fato novo, favorecendo a associação precipitada. Fatores emocionais, afetivos, medo ou raiva, também favorecem o uso de distorções no arquivamento de informações.
Por exemplo, se um torcedor de um clube vir o seu centroavante ser derrubado próximo à grande área do adversário, dificilmente aceitará a falta como ocorrida fora da área. Não se trata, nesse caso, de desonestidade, mas de uma percepção distorcida pela emoção. O torcedor será capaz de afirmar, até de brigar, por sua percepção.
O mesmo ocorrerá se você vir seu filho batendo no filho do vizinho. A sua reação, diante desse fato, dependerá de sua autoestima e autoimagem. Ou você pedirá desculpas pelo mau que seu filho causou, ou irá puni-lo para lhe mostrar que você educa bem, ou falará baixinho: “Ainda bem que o meu bateu”. De uma forma ou outra, você estará distorcendo por emoção, identificando-se por afeto, ou temendo o julgamento por medo do outro.
Agora, imagine seu filho de dois meses de idade. Como ele irá associar a gargalhada e o cheiro de seu charuto? Ele irá associar à agressão: “O mundo é agressivo comigo, está contra mim”.
Evidentemente a distorção é inevitável. Não é um fenômeno obrigatoriamente ruim ou negativo, mas um mecanismo que permite ao indivíduo conhecer mais a realidade. Torna-se um problema quando a diferença da realidade exterior e a realidade interior for muito grande.
A generalização consiste no fato de entendermos características de um estímulo para outro, de características também semelhantes. Como não temos condições de experimentar tudo na vida, para sabermos se vale a pena ou não viver, nos defendemos dos perigos fazendo escolhas.
Se uma criança põe o dedo em algo vermelho, redondo, e se queima, ela irá generalizar: “Todas as coisas vermelhas e redondas queimam”. Portanto, ela não mais repetirá essa experiência. Numa outra ocasião, ela pode colocar o dedo em um objeto redondo, azul, e ter uma sensação agradável. Então generalizará: “Coisas azuis e redondas são agradáveis”. Assim, começará a diferenciar várias características dos objetos ou dos fatos, para saber qual é ruim ou perigoso.
O mesmo ocorre quando a criança vai ao médico, este lhe aplica uma injeção e ela conclui: “Médico é mau”. Ou quando o pai chega mais tarde em casa, e naquele dia, a mãe bate na criança: “Toda vez que minha mãe chega tarde, minha mãe me bate”.
As generalizações permitem que a pessoa aprenda o mundo sem viver tudo o que ele oferece e, sobre esse ponto de vista, é também um mecanismo positivo. Torna-se negativo quando fatores emocionais favorecem a criação de pré-julgamentos e pré-conceitos, cuja rigidez impede o cruzamento de novas informações. É importante entender que os preconceitos surgem, geralmente, para proteger o indivíduo contra alguma ameaça.
A eliminação é o terceiro mecanismo de apreensão da realidade. Por esse mecanismo, a criança elimina de sua percepção aquilo que não lhe serve ou que lhe causa sofrimento. Associando os três mecanismos, a criança distorce sua percepção para associá-la a alguma informação anterior semelhante, generaliza tudo o que parece com aquilo que é ruim e, portanto, elimina a experiência: “Isto não serve”.
A criança não pode experimentar todos os estímulos para, a partir daí, eliminá-los um a um. Poderá até ser eliminada antes por um deles, uma vez que muitas experiências às quais se expõe são realmente de risco. Por isso, esses três mecanismos de aprendizado vão auxiliar a criança a se proteger de muitos perigos, além de lhe proporcionar a internalização de um mapa da realidade objetiva.
A distorção, a generalização e a eliminação são ainda mais importantes nos primeiros anos de vida, quando a criança capta o maior volume de experiências, tem seu crescimento acelerado e suas aquisições evoluem rapidamente. Se, naturalmente, já ocorrem distorções na vida de um indivíduo, imagine se as pessoas com quem as crianças se relacionam forem absolutamente carentes de autoimagem, autoestima e autoconfiança.
As pessoas com as quais as crianças se relaciona são essenciais para que ela entenda o mundo que a cerca e perceba a si mesma. Essas pessoas funcionam como espelho para a criança, e a relação pais- filhos, desde o nascimento do bebê, adquire uma característica especial: o espelhamento.
PRÓXIMO CAPÍTULO: “Pais: espelhos para seus filhos”.
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