A criança saudável conhece a si mesma
* Capítulo do livro Filhos Saudáveis, de Wimer Bottura, Ed. República Editorial, p. 46
Se o espelhamento ocorrer de forma correta, a criança terá uma autoimagem realista que irá, também, lhe proporcionar uma individualidade clara e definida. Portanto, saberá quem ela é e conhecerá a si mesma. Este é o estágio do saber quem sou, consequência, na verdade, de uma boa relação da criança com seus espelhos.
Nessa fase, aprende-se a separar os problemas e as qualidades do outro, das qualidades de defeitos de si mesmo. Uma pessoa que vivenciou um bom espelhamento, não sofrerá quando alguém disser não às suas ideias; não sofrerá ao dizer não às ideias e sugestões de outras pessoas.
Se o indivíduo desenvolve uma boa autoimagem, saberá diferenciar perfeitamente seu próprio eu, suas ideias e seus comportamentos, daqueles das outras pessoas. Não vai sofrer ao ouvir uma ideia contrária ou diferente da sua, não confundirá as ideias das pessoas com as próprias pessoas. “Ela não me rejeita, somente não aceita minha ideia’.
Tendo uma boa autoestima, além de uma boa autoimagem, iremos impedir que os outros nos invadam com seus problemas e suas rejeições. Tendo uma baixa autoestima, nós nos sentiremos obrigados a aceitar responsabilidades que não são nossas e a reprimir sentimentos que não deveriam ser reprimidos.
Por sua vez, a autoconfiança desenvolve a capacidade de pessoa poder resolver as consequências de seus próprios erros. O individuo autoconfiante sabe que é responsável por seus atos, porque acredita que tem condições de arcar com as consequências ou de desfrutar de seus efeitos. Quando se desenvolve uma baixa autoconfiança, é preciso negar os próprios erros, projetá-los nos outros, disfarça-los ou manipular as pessoas com culpa, como se, fazendo-se de culpado, não fosse preciso assumir as responsabilidades.
Vamos agora, abordar 3 casos que podem ilustrar bem o que digo.
Inicialmente, vamos imaginar que o Sr. Silveira quebre, acidentalmente, um vaso muito valioso, presente da avó da Sra. Silveira, que o trouxe de viagem de um país longínquo. Diante do acidente, o Sr. Silveira terá possivelmente 3 atitudes.
Na primeira poderá dizer: “Quem deixou esse vaso aqui? Como eu poderia enxergá-lo?”. Provavelmente irá culpar a faxineira pelo fato e manda-la embora. Assim, o Sr. Silveira estará simplesmente negando seu erro e projetando-o na faxineira.
Na segunda, poderá dizer: “Sou mesmo um fracasso, meu bem! Sinto-me tão desolado pelo que fiz!”. Ao mesmo tempo irá se mostrar arrasado, com uma expressão infeliz, que poderia ser traduzida por: “Sempre acontece comigo! Eu não tenho jeito, só morrendo…”. Com essa atitude, o Sr. Silveira provocará uma resposta imediata de sua esposa: “Ora, meu bem, não foi nada. Não faz mal, o vaso era velho mesmo!”. Em outras palavras, é como se sua esposa estivesse dizendo: “Coitado, você está sofrendo tanto com isso que eu nem vou me incomodar…”.
Na terceira, caso o Sr. Silveira tenha autoconfiança, autoestima e autoimagem adequadas, dirá: “meu bem, eu quebrei seu vaso. Sei que ele é importante para você, mas quero que você saiba que não foi intencional. Espero que eu possa ressarci-la e, se não for possível, espero que você compreenda que tudo não passou de uma acidente”.
O espelhamento correto cria pessoas verdadeiras, com qualidades e defeitos, características que todos nós temos. O conhecimento de nossas qualidades e defeitos faz com que nós possamos dimensionar corretamente as nossas ações e reações correspondentes. Não assumiremos compromissos que dependam da habilidades que não possuímos ou que realmente sabemos não possuir. Não deixaremos de assumir atribuições para as quais pensamos não estar habilitados, simplesmente porque passamos por um espelhamento errôneo.
Enfim, a maioria de nós desconhece suas reais habilidades e pensa ter defeitos ou limitações que não possui.
No segundo exemplo, vamos imaginar que seu filho irá disputar uma partida de futebol com colegas de outra classe da pré-escola. Um detalhe importante nessa história, é que você, desde pequeno, queria ter sido um bom jogador e não pôde, porque sua família desejava que você fosse engenheiro, advogado ou médico. Na verdade, você gostaria mesmo de ter sido um bom centroavante.
Agora, seu filho gosta mesmo de jogar em qualquer lugar, e nem sabe o que é ser centroavante. Você, no entanto, o estimula a pegar a camisa 9, a do Vavá, Serginho, Flávio, Dadá Maravilha. Espera que ele fala os gols que você gostaria de ter feito, estimula-o e passa suas expectativas. Aos poucos, você cria o clima de competição.
Mas o garoto só quer brincar com os colegas, não tem noção de que há uma competição e, para ele, o futebol é apenas uma festa. No início da partida, a bola não chega até seu filho. Então, o menino sai da posição e descobre que lá no meio, lá atrás, na defesa, consegue pegar mais a bola. Dá chutões, cabeçadas, tira a bola dos outros. Ele está se divertindo.
Você vendo o jogo de fora pensa: “Meu filho está fora de posição, só dá chutões! Não é assim que eu quero que ele seja”.
No final, o time do seu filho perde e o garoto não faz os gols que você tanto fantasiou. Seu filho vê, na expressão de seu rosto e corpo, que o decepcionou. Pergunta-lhe se realmente você ficou chateado e você nega. Contudo, sua voz não é clara e alegre como em outros momentos e seu filho percebe a diferença. Então, o menino conclui: “Não tenho jeito para futebol; meu pai está sofrendo porque perdi”. Ele nota a sua mudança, da esperança à decepção. Mas você não se dá conta dessa percepção do garoto. Assim, seu filho conclui: “Não dou para isso, não posso decepcionar meu pai”.
Diante desse acontecimento, você não foi verdadeiro. Seu filho foi, até um certo momento, verdadeiro, mas estará deixando de ser. Começará a pensar que não tem habilidade para o esporte ou forçar-se-á a tê-la, somente para agradar o pai.
Tudo também poderia ter acontecido de maneira diferente. Você poderia tê-lo elogiado, ele poderia ter feito um gol ao acaso, daqueles que a bola bate no pé e entra, sem o goleiro perceber. Nesse caso, seu filho iria começar a acreditar, erroneamente que possui uma habilidade que, na realidade, não tem. É muito comum pais salvadores criarem filhos que pensam ter habilidades que não possuem.
Se nós temos uma autoimagem realista, fiel, e conhecemos nossas limitações, não aceitaremos fazer coisas para as quais não estamos realmente habilitados, ou iremos tomar medidas para compensar e corrigir deficiências.
Na terceira história, vamos imaginar que seu filho está prestes a entrar em conflito com um garoto de outra classe, se ele reconhecer que aquele menino é maior e mais forte, vai evitar uma briga, um confronto físico. Poderá recorrer até a uma estratégia para colocar o colega ao seu lado e não contra ele. Mas, seu filho não conhece a si mesmo, comprará brigas com pessoas que poderão feri-lo. Não usará a inteligência para solucionar os problemas ou evita-los, pois nem sequer os identifica.
Quantas pessoas você conhece – talvez você mesma seja uma delas – que gostariam de cantar, falar em público, mostrar suas ideias ou pintar, e não o fazem porque estão confusas com sua autoimagem?
Você pode não ser o melhor, conforme lhe foi espelhado mesmo porque, não há necessidade de sermos o melhor.
Muitas vezes, passamos o tempo todo olhando os nossos defeitos para tentar encobri-los, negá-los ou disfarçá-los, como se eles fossem totalmente incorrigíveis. Reservamos muito pouco tempo para olharmos nossas qualidades, e buscamos soluções, mesmo que parciais, para os nossos defeitos.
PRÓXIMO CAPÍTULO: “A busca do ser ideal”.
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