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A criança e os estágios de apreensão da realidade

* Capítulo do livro Filhos Saudáveis, de Wimer Bottura, Ed. República Editorial, p. 41

Desde que nasce, a criança está se relacionando intensamente com o mundo à sua volta, buscando se inteirar e se integrar á realidade. Ao longo dos anos, sua maneira de entender quem é e o que está ao seu redor evolui por vários estágios, refletindo, assim, seu próprio desenvolvimento.

Quando pequena, a criança se sente o centro do universo e acha que tudo se refere a ela. Está vivendo o estágio do é, recolhendo material do mundo exterior, dos seus espelhos, para construir seu próprio ser.

Nessa fase, a criança facilmente pode se sentir culpada por algo, principalmente se perceber que algum acontecimento desagradável ou vivenciar situações de sofrimento que envolvam seus espelhos. Pode, por exemplo, se sentir culpada pelas brigas dos pais, pela tristeza da mãe, e internalizar conceitos ruins a seu próprio respeito.

Vamos analisar uma situação bem concreta, que atinge a maioria das famílias. A criança, desde cedo, é ensinada a não sentir raiva do pai ou da mãe. Ter tal sentimento significa “pecar”, “ser má” e “ir para o inferno”. Se seguirmos esse raciocínio, poderemos observar conflitos constantes e inadequados á compreensão da criança.

Senão, vejamos. Um dia, uma mãe afasta seu filho de um cachorro para evitar que seja mordido. O filho não entende o gesto de proteção de sua mãe porque, para ele, o cachorro é uma fonte de prazer.

Nesse momento, qual o sentimento do filho em relação à mãe? Raiva, pura raiva. Mas pressionado por pré-conceitos sobre os sentimentos, o filho conclui: “Sinto raiva de mamãe. Se tenho raiva dela, sou mau e ninguém vai gostar de mim”. Ou seja, diante dos fatos, sozinho, vai tomando resoluções sobre si próprio, sobre os outros, o mundo e a vida. De qualquer forma, essas resoluções são internalizadas, sejam elas reais, satisfatórias ou não.

Nesse caso, a criança, por fora, sente-se menos inteligente, menos capaz e menos bela do que as outras. Por dentro, sente-se má, fraca, rejeitada. Consequentemente, sua autoimagem vai sendo construída de forma infiel, distorcida, pior do que deveria ser, e sua autoestima acompanha essa distorção.

Como resultado do espelhamento, construímos o segundo estágio que chamamos pensa que é. A nessa autoimagem e autoestima, na realidade, se referem ao que a gente pensa que é e não ao que se é, realmente.

Assim sendo, a autoimagem é a forma da pessoa ver a si mesma; a autoestima é o fato dela gostar do que vê; a autoconfiança é o fato dela confiar nas pessoas que a espelharam.

Como a fase do é acontece antes dos dois anos de idade, esquecemos rapidamente o que aconteceu nesse estágio e passamos a viver o pensa que é como se fosse o é. Ou seja, a pessoa já não percebe a existência do é, já tem sua própria interpretação do mundo e de si mesma, e acha, realmente, que o mundo é da maneira como ela o vê.

Já o terceiro estágio do espelhamento é aquele em que nós tentamos compensar ou negar o pensa que é, e assumimos o mostra que é. Por exemplo, uma pessoa que se mostra boazinha, submissa, sempre se desculpando, pode estar tentando negar ou compensar seus sentimentos de hostilidade, seu medo e sua capacidade para violência. Na realidade, aparentando ser pacífica, compensa ou nega sua agressividade. Dessa maneira, as pessoas passam a se relacionar com o mostra que é.

Assim ,mostra-se forte quem pensa ser ou teme ser fraco. Mostra-se perfeito aquele que tem medo de não ser aceito, pois a perfeição é uma forma de se assegurar que os outros  irão precisar ou depender da pessoa, portanto irão aceita-la.

Ao mostrar o que é, a pessoa pode manipular os que estão a sua volta e ser, inclusive, aceita por um disfarce. Mostra-se simpático quem precisa de aprovação do outro, pois sendo agradável, sempre solícito e prestativo, estará convidando o outro a ser como ele. Mostra-se super-honesto aquele que teme suas fantasias desonestas. Nesses casos, não há a aceitação verdadeira, apenas uma aparência de aceitação.

Quando estamos no estágio mostra que é, deixamos de nos relacionar com a outra pessoa e passamos a se relacionar com seu personagem. Da mesma forma, a outra pessoa também passa a se relacionar com o nosso personagem. A maioria de nós se relaciona com e como personagem, e não sabe mais diferenciar o é do mostra que é.

É exatamente neste momento, que começamos a sentir um vazio: o vazio que corresponde ao é desaparecido. Surgem, então, ansiedades, angústias e manifestações corporais como respostas a essas sensações. Buscamos, como um cicli sem fim, uma série de disfarces para compensar aquilo que não aceitamos em nós mesmos. A partir daí, a aparência passa a ser mais importante do que o ser.

PRÓXIMO CAPÍTULO: “A criança saudável conhece a si mesma”.

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