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A busca do ser ideal

* Capítulo do livro Filhos Saudáveis, de Wimer Bottura, Ed. República Editorial, p. 51
No geral, a sociedade e a educação, de geração a geração, cultiva e alimenta, em cada um de nós, a imagem do ser humano ideal. Ideal que não somos e não conseguimos ser.
Desde pequenos, quando miramos no espelho o ideal e, dentro de nós, sabemos que estamos longe dele, começamos a nos ver como pequenos impostores. Começamos, lentamente, a criar uma autoimagem ruim. Os espelhos não percebem esse mecanismo, mas a criança sente e enxerga dentro dela mesma. As necessidades sexuais primárias da infância, por exemplo, naturais do ser humano, recebem, frequentemente, uma sinalização de que algo é, ou está errado. Ora, a criança percebe todas as nossas manifestações e intenções: a repressão velada, a repressão descarada, e as agradáveis sensações corporais, inerentes à sensualidade e à sexualidade. Se comparar o que sente com a aprovação ou não de seus espelhos, pode internalizar conceitos ruins a seu respeito; passa a mostrar vergonha, medo, culpa. Como pode sentir e gostar dessas sensações se elas são tão erradas? O que nossos espelhos não sabiam é que nós, crianças, não escolhemos o que sentimos: as sensações são espontâneas e não há maldade nisso.
Em função desse conflito, entre as sensações espontâneas e o que foi erroneamente sinalizado, a criança perderá a espontaneidade. Com o tempo, irá se afastar dos pais e irmãos, porque passará a ter medo do julgamento que farão a seu respeito. Isolando-se, não terá com quem conversar sobre seu conflito e passará a acreditar que é a única pessoa no mundo a ter esse distúrbio. Se a criança pudesse dialogar verdadeiramente, sem julgamentos prévios, não iria se sentir anormal, um ser aberrante, e não necessitaria de disfarces.
Você já viu uma dessas mulheres que, com sua postura, forma de andar, de se vestir, quer nos dizer: “Não sou dessas”? Provavelmente, essa mulher foi uma criança fogosa, no estágio do é; viu-se como “errada”, no estágio do pensa que é; e, no estágio do mostra que é, diz: ”Não sou dessas”.
Essa mulher se comporta e se mostra dessa maneira para responder a pergunta que, um dia, foi feita por seus espelhos. Hoje, ela tem necessidade de dizer a si mesma, o tempo todo, que “não é uma dessas”. Ela se pergunta se é ou não, e sofre, achando que os outros é que estão em dúvida a seu respeito. Está sempre em diálogos internos, geralmente inconscientes, onde se sente acusada e, automaticamente, entra em defesa. Vive em defesa aquele que se sente atacado. Se não forem ataques objetivos, só poderão ser subjetivos.
O mesmo ocorre com o homem que precisa dizer, corporalmente, a todo momento: “Sou macho”. Ninguém está colocando-o em dúvida: é ele quem duvida de si mesmo. Foram seus espelhos que sinalizaram, de forma indevida e precoce, expectativas para as quais ele não estava pronto. Quando somos criados com um referência exagerada, desenvolvemos o medo de decepcionar, e a necessidade de viver provando o que ninguém está duvidando, a não ser nós mesmos.
As pessoas que têm o espelhamento correto, que têm a sua individualidade definida, sabem quem são, vivem uma vida melhor e mais saudável para si mesmas e aos seus.
PRÓXIMO CAPÍTULO: “O espelhamento nunca termina”.

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